quinta-feira, 15 de julho de 2010

Gama de possibilidades

Foi engraçado como fizeste questão de estar presente em cada parte do meu dia.
Fantasiaste-te de meu Chefe, apareceste na minha esquina em uma cor cinzenta e um tanto mal-cuidado: eu sabia que eras tu incorporando aquele gato. Vieste em forma de flores, de cartas e de tantas outras maneiras, mas eu te via em tudo aquilo, e tudo o que eu desejava era te ter de volta.
Hoje meu maior medo não é nem tanto a tua ausência (que ainda me dói, quando fico a sós, eu e meu pensamento) e nem tanto a saudade que sinto do teu jeito manso de se chegar.
O que mais me aflinge a alma é mesmo a possibilidade. A possibilidade de não existir mais Marília na ponta da tua esferográfrica vermelha. De não ser mais eu por quem você chora e pede perdão. De e você, enfim cansar-se do desgaste em vão e sair de casa a procura de alguma pessoa para amar que não Eu.
Da mesma forma como quando eu me assustava, antigamente, por cogitar que um dia poderíamos ser quase dois estranhos, como hoje somos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

É que andei por aí
Colhendo a solidão
Por ter plantado a tristeza
No meu Coração
É que eu vi a Inverdade
Transformar-se em Saudade
Me pedindo perdão

É que tive vontade
De voltar pelo Tempo
Em que tudo era isento
De qualquer incerteza
Eu só via a beleza
E na minha inocência
Não havia razão

domingo, 11 de julho de 2010

Mancha

No meu Quarto
Na Segunda Gaveta
da Porta do meio
do meu Guarda-Roupa
Mora uma Caixa
Com suas Trinta Cartas dentro
E mais uma Carta com foto de Nós dois
Mas o problema não é nem tanto as Cartas
Nem tanto as Fotos que só me vieram depois
É apenas aquela mancha naquela foto colada
Justo aquela mancha desgraçada
Onde mora teu perfume adormecido
Dentro daquela Segunda Gaveta
Mora sua letra malamanhada
Mora o que restou dos nossos restos
Mora o que eu temo ver,
Ah, não quero nem ver
Quando eu enfim abrir
Vou encontrar
Naquela mancha desgraçada
Mais uma vez você.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Eu gostava de tudo nele: o jeito carinhoso, simpático, afável, adorável, compreensível, inconfundível. E os gostos por tênis, fórmula 01, e nada de futebol. A simpatia engraçada pelos que já se foram, mas que de uma forma ou outra tinha alguma conexão secreta: Tim Maia, Ayrton Senna e Michael Jackson. Dentre outras coisas, tinha também aquela mania secreta de ajeitar o cabelo, e eu rindo do outro lado do espelho. E o jeito de me fitar, de me envolver, me proteger e me rodear de flores e poesias por todos os lados. A gente tinha uma sintonia que ninguém entendia bem, e hoje eu queria poder explicar para qualquer pessoa, que é pra ver se eu desabafava um pouco tudo o que eu ando sentindo. Meu coraçao agora descansa, mas ainda bate machucando o resto do corpo porque não aceita não mais escutar sua voz no telefone. Procuro não ouvir mais aquela Bossa que era nossa, e Vinícius vai ficando um pouco de lado, enquanto eu tento mudar o disco.
Gostava de tudo nele, desde o jeito estranho de se acomodar em um ambiente desconhecido, até do humor infantil e das brincadeiras de inventar o futuro. A gente errou feio! Gostava de comer um pão-com-qualquer-coisa e muita Coca-cola, e depois ainda empurrar uma sobremesa, se sujando como sempre. E depois de beber água, ele ficava a esperar o meu AHHH, para fazer um deboche, e em seguida rolar de rir pelo chão de terra batida. Era como se meu coração desse uma festa dentro de mim, toda vez que eu o via. Adorava ver a evoluçao daquele namorico se transformar em uma coisa séria, e a gente contava as coisas um para o outro, mas ele era sempre o psicólogo que sabe medir bem as palavras. No carro a gente cantarolava alto as músicas de outro tempo: talvez a gente não seja de agora, mesmo, mas de um pensamento distante que nunca existiu. Um simples passeio a praia era motivo de alegria maior, leva a farofa, que a diversão é garantida, só nós dois torrando na areia escaldante e efervescente, a trocar beijinhos e falar umas juras de amor. Pra mim ele era único, e eu me lembro do último convite que ele me fez para jantar à luz de velas, que foi quando a gente acabou na pracinha comendo o melhor churrasquinho da minha vida, enquanto eu o olhava e desejava passar com ele o resto da minha vida. Até comer espetinho era bom, e eu sabia que sempre teria uma surpresa me esperando a qualquer hora, como por exemplo aquele pic-nic na Jaqueira, em que ele fez questão de levar toalha xadrez e muita Club Social.
É por isso que tenho tanta dificuldade de esquecer esse menino, seguir em frente e gostar de outro alguém. Será que é difícil para todo mundo entender?
Continuo achando que foi único, mesmo, inclusive no modo como tudo teve seu Fim tão trágico. Com ele eu aprendi a amar alguém de uma forma como nunca havia experimentado amar nenhuma outra pessoa e depois vi que nem tudo é do jeito que a gente queria que fosse.