terça-feira, 7 de outubro de 2008

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"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer." (Graciliano Ramos)

Deveríamos ter a alma de Graciliano, talvez quem sabe seríamos seres mais humanos, sem rodeios: seríamos diretos, mais verdadeiros. Que é justamente o que falta no mundo, essa tal dessa sinceridade. Seríamos mais justos e mais coerentes.
Contudo, Graciliano Ramos utiliza uma linguagem enxuta porque fala da seca, retrata o abandono do sertanejo que procura as palavras na hora de se expressar e acaba não conseguindo, tamanha a ignorância. Assim, é necessário abolir todas as riquezas - inclusive a vocabular.
A miséria tira do povo todo o direito que ele tem de ter sonhos e pensamentos, cedendo o espaço que falta para uma só vontade: a de sobreviver.

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