quinta-feira, 28 de agosto de 2008



"Antes de concluir este Capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis.
Mas os tempos mudaram tudo; os sonhos antigos foram aposentados e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros não poderiam fazê-lo. A ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares são objeto da ambição e da rivalidade da Europa e os Estados Unidos.
Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos a política internacional, fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Não peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memória ou da digestão; basta-me um sono quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas."


Machado de Assis - Dom Casmurro

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